Cerimônia

Rumo ao Amazonas

Depois de seis dias de atividades, a emoção marcou na noite desta sexta-feira a sessão de encerramento da 60ª Reunião Anual da SBPC, que ocorreu na Unicamp. O próximo encontro será justamente na região que foi objeto de cinco núcleos temáticos de discussões no transcorrer do evento – a Amazônia. “Vamos invadir o oeste da linha de Tordesilhas. Os debates instaurados neste encontro serviram de pano de fundo para o que poderemos discutir em Manaus”, afirmou o presidente da SBPC, Marco Antonio Raupp.

Agradecimentos à Unicamp e o início da preparação para um esforço concentrado para 2009 na reunião a ser realizada na capital amazonense marcaram a solenidade. “Vamos com o intuito de unir forças para alavancar o crescimento daquela região. Temos um desafio, e a SBPC não está alheia a ele”, destacou Raupp.

O reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge, salientou que a ciência brasileira avançou nestes dias pela qualidade das apresentações e a intensidade do debate travado nas conferências, mesas-redondas e simpósios que integraram a programação científica. Segundo Tadeu Jorge, “a ciência, a tecnologia e a inovação receberam um novo impulso”. Ressaltou ainda o orgulho de a Unicamp ter tido a oportunidade de sediar o maior evento da ciência no país e estar no centro das atenções durante a semana. O reitor também fez questão de mencionar o esforço dos professores Eduardo Guimarães e Marcelo Knobel, que coordenaram os trabalhos em Campinas. “Eu sabia que não teria nenhum problema ao deixar a coordenação do evento a cargo de um lingüista e de um físico”, brincou.

O secretário da SBPC, Aldo Malavasi, destacou o profissionalismo que encontrou na Universidade. Ele acrescentou que, em seu balanço, as atividades transcorreram tranqüilamente. “Ficou evidente o envolvimento de funcionários e de professores, assim como da equipe de organização da SBPC”.

Para encerrar, o presidente da SBPC manifestou o apoio aos projetos de investimentos em pesquisa feitos pelo governador do Amazonas, Carlos Eduardo de Souza Braga. Raupp fez menção à importância de se usar a criatividade para desenvolver pesquisas que tenham aplicação social naquela região. Também destacou as iniciativas de convocar para o debate os países que também compõem a Amazônia no próximo encontro. “Podemos prestar grande contribuição. E é com este espírito que iremos para Manaus. O mundo não nos perdoará se não fizermos nada pela Amazônia”, finalizou.

(Raquel do Carmo Santos)

Governador veste a camisa da SBPC

Sob o terno, o governador do Estado do Amazonas, Carlos Eduardo de Souza Braga, vestia a camiseta da SBPC 2009, que acontecerá em Manaus. Sua roupa já dava pistas do tom da palestra que proferiu na noite desta sexta-feira (18), no Centro de Convenções da Unicamp, no encerramento da 60ª Reunião Anual da SBPC. Braga procurou mostrou as principais ações implementadas no âmbito da ciência e tecnologia (C&T) em seu governo. No escopo do conjunto de medidas, desenvolvimento econômico e tecnológico associado à preservação da Amazônia.

“Muitos Estados da Federação têm sérios problemas de desmatamento da Amazônia legal. Mas o Amazonas possui 98% da suas matas preservadas”, afirma Braga. Isso se deve, segundo ele, a um modelo de política de incentivo fiscal não-poluente ou agressiva ao meio ambiente. “Falo principalmente do pólo industrial da Zona Franca de Manaus”.

Braga afirmou que o Amazonas possui uma política estruturada de C&T, com instituições totalmente financiadas pelo governo estadual. Os destaques, segundo o governador, são a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que conta atualmente com 129 mil alunos, e a Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM), que ao longo de 2008 terá à disposição mais da metade do orçamento estadual destinado à C&T.

Segundo Braga, muitas iniciativas estão sendo implementadas no Amazonas para solucionar um dos mais graves problemas da região, que é a falta de mão-de-obra qualificada. Apesar disso, Braga salientou que duas áreas do conhecimento continuam problemáticas. “Faltam médicos e engenheiros. Em muitas cidades, a demanda por médicos precisa ser atendida com a contratação de profissionais estrangeiros que nem CRM possuem. Já quem almeja se formar em engenharia, precisa sair do Amazonas para estudar em universidades de outros Estados”, afirmou.

Além da mão-de-obra, conhecimento da floresta e inovação tecnológica também são contemplados pelas ações de seu governo, segundo Braga. Como no resto do Brasil, os políticos da região Amazônica voltam seus olhos para o incentivo de pesquisas nas empresas. Quanto ao homem da mata, Braga falou sobre o programa Bolsa-floresta, que paga 600 reais por ano para 8.500 famílias que moram em áreas de conservação ambiental. O objetivo é evitar que essas pessoas degradem o meio ambiente. “É pouco dinheiro para alguns, mas para quem não tem nada é a oportunidade de comprar combustível, sal e outros mantimentos que não são produzidas na região”.

Próximo ao fim de sua fala, o governador mostrou sua indignação com aqueles que vêem o Amazonas exclusivamente como uma floresta a ser preservada. “Tem gente que quer transformar a Amazônia em um santuário. Essas pessoas ignoram que, dessa forma, 30 milhões de pessoas morrerão de fome ou virão para São Paulo, onde o destino delas pode ser uma ponta de bala ou a prisão”.

(Luiz Paulo Juttel)
Fotos:
Antônio Scarpinetti e Álvaro Kassab (Rio Juruá, Eirunepé, Amazonas)
Imagem da capa do Portal: Luís Paulo Silva
Edição de imagens: Hélio Costa Júnior

Vencedores do Cientistas de Amanhã

Flávio Araújo Marques, do município de Miranda, Mato Grosso do Sul, foi o ganhador do 51º Concurso Cientistas de Amanhã, com o trabalho “Teste de disponibilização da produção do biodiesel para pequenos produtores de forma artesanal através de gordura animal”. O ganhador foi anunciado no início da cerimônia de encerramento da 60ª Reunião Anual da SBPC. “Não consigo acreditar. É algo indescritível. Estou muito emocionado”. Flávio, de 17 anos, está no último ano do curso técnico de Agropecuária da Escola Bodoquena da Fundação Bradesco. Ele terá o direito de conhecer, juntamente com seu orientador, Marcelo de Carvalho Lorenzini, o Museu de Ciências de Barcelona, na Argentina.

Os outros ganhadores foram Aline Froes, Guilherme Henrique Martins, Júlia Carvalho, Ana Cláudia Cassanti e Flávio Araújo Marques. Cada um deles recebeu como prêmio uma viagem a Brasília. O objetivo do prêmio, segundo a coordenadora Eda Tassara, é estimular a iniciação científica de crianças e adolescentes. O concurso é organizado pelo Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (Ibecc) em parceria com a Unesco.

Flávio Marques acredita que o prêmio será um estímulo para prosseguir na carreira científica. “Eu já estava animado, agora fiquei mais ainda”, destaca o vencedor, que pretende dar continuidade ao estudo da receita para o biodiesel que desenvolveu. Segundo seu orientador, professor Marcelo Lorenzini, além de extremamente criativo, o projeto de Marques será aplicado na própria escola, que adota o regime de internato. Pelos cálculos do professor, a produção será de 10 mil litros por ano de combustível a ser utilizado em sete tratores e três caminhonetes da escola. “O projeto pode ser adotado por pequenos produtores da região, mas já estamos viabilizando a sua aplicação na escola, pois o abate de frango é realizado três vezes ao ano, e seus resíduos são destinados à compostagem. Flávio desenvolveu um método que derrete a gordura animal, transformando-a em biodiesel”, destaca Lorenzini.

São os seguintes os demais trabalhos premiados:

Microbiologia Democrática - das gêmeas Ana Cláudia e Ana Clara Cassanti – Trata do ensino da microbiologia a partir de experimentos e jogos para escolas que não possuem laboratório.

Parâmetros analisados da água de Londrina após a utilização e tratamento de esgoto - Júlia Carvalho (Londrina) – Análise de parâmetros e conscientização da importância dos rios. Integra o projeto da prefeitura de Londrina “O rio da minha rua”.

Estudo da atividade antimicrobiana in vitro do látex de aveloz, de Guilherme Martins (Paraná) – Trata da inibição da proliferação de uma bactéria que causa a infecção hospitalar e pneumonia

Estudo comparativo entre o teste da régua e o MTR-S na medição do tempo de reação simples a estímulos visuais em adolescentes-Aline Fores (Rio Claro) – Método mede de forma prática o tempo de reação de uma pessoa.

(Raquel do Carmo Santos)

Comportamento

A simbologia ‘intensa e polimorfa’ de 68

A exposição de pontos de vistas distintos e ao mesmo tempo complementares sobre o significado de 1968 marcou a fala dos quatro sociólogos que participaram na tarde de hoje (18) da mesa “1968: 40 anos depois”. Essa diferença na análise dos sociólogos é compreensível, uma vez que essa data não apenas no Brasil como em todo mundo teve uma “simbologia muito intensa e polimorfa”, como observou Renato Ortiz, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da da Unicamp (IFCH).

Ortiz viu essa multiplicidade de perto, já que nesse período “comprou uma passagem na terceira classe de um navio para França”. Essa vivência pessoal estimulou sua análise focada no “Maio Francês” e na relação entre as dimensões subjetivas e políticas desses acontecimentos de ruptura com o tradicionalismo, que marcaram 1968 e todo final da década de 70.

Uma das manifestações mais emblemáticas dessa diversidade simbólica de 1968 pode ser observada no Brasil nas próprias manifestações artísticas, mais especificamente nos famosos festivais de música. Marcelo Ridenti, também professor do IFCH, trouxe essa lembrança citando dois movimentos ideológica e musicalmente muito distintos que surgiram nessa época: o Tropicalismo e as músicas de protesto.

Na análise de Celso Frederico, da USP, a data deve ser entendida pensando na diferença entre história social e do que chamou de “história do Eu”. Segundo o sociólogo, existiria uma tendência em confundir os depoimentos pessoais com as narrações construídas pelos historiadores. A diferença estaria, fundamentalmente, na característica e nos objetivos das duas formas de contar a história. Os depoimentos estariam carregados de um discurso persuasivo, e de uma tentativa de corrigir o passado, enquanto as narrações historiográficas estariam preocupadas em entendê-lo.
Maria Ribeiro do Valle, da Unesp, lembrou da relação entre 1968 e a violência no Brasil. A socióloga mencionou a violência da ditadura militar contra civis que se opunham ao governo, principalmente os estudantes, que marcaram o período de 64-69. A pesquisadora abordou acontecimentos como A “Sexta-Feira Sangrenta”, a “Passeata dos 100 mil”, a morte do estudante Edson Luis e de outros 28 civis. “O movimento de 68 aqui não aconteceu a reboque do Maio francês”, apontou. Ela lembra que, em março de 1968, a morte Edson Luis já havia provocado ampla reação popular.

Na opinião dos quatro sociólogos é importante não mitificar a data, mas ao mesmo tempo reconhecer seu significado histórico contestatório em diversos âmbitos - político, cultural e educacional, entre outros. Essa contestação foi decisiva para o surgimento de vários movimentos, entre os quais os de defesa do meio ambiente, igualdade de direitos e liberdade de comportamento. “68 ainda representa a idéia de que um outro mundo é possível”, concluiu Ridenti.
(Márcia Tait)
Foto: Antoninho Perri

Tecnologia

O que há de novo em biocombustíveis

Os pesquisadores Frederico Duraes, chefe geral da Embrapa Agroecologia, e José Ivo Baldani, da Embrapa Agrobiologia, apresentaram na mesa-redonda “Biocombustíveis: Novidades e Inovações”, hoje (18) à tarde, algumas inovações da Embrapa em pesquisas sobre bicombustíveis.

Frederico Duraes apresentou a palestra “Visão estratégica do uso de matérias-primas para bioenergia e ações de PD&I”, na qual falou sobre os principais pontos técnicos com os quais a Embrapa Agroecologia trabalha: arranjos e sistemas produtivos sustentáveis para eficiência agrícola e industrial de cana-de-açúcar e etanol; estudos de melhoramento genético e desenvolvimento de OGMs para tolerância e resistência a estresses bióticos (tolerância a pragas) e abióticos (tolerância à seca); fixação biológica de nitrogênio e eficiência de inoculação; zoneamento agro-econômico e ecológico da cana-de-açúcar no Brasil; rotas tecnológicas e gargalos de inovação para processos de produção de etanol; biologia energética (construção biológica de matérias-primas, visando captação, armazenagem, conversão e uso energético); e estudos sobre a cana-de-açúcar (variabilidade, manutenção, caracterização de germoplasma e cultivares adaptadas às regiões tradicionais de expansão).

Segundo Duraes, com relação ao etanol lignocelulósico, a Embrapa busca selecionar microorganismos e melhorá-los para a produção de etanol, promover seqüenciamento genético, melhorar as características das matérias-primas, e definir rotas tecnológicas que sejam técnica e economicamente viáveis. “Precisamos aproveitar a agroecologia para alavancar o desenvolvimento e a competitividade do Brasil”, comentou o pesquisador.

Além da cana-de-açúcar, no Brasil existem muitas outras matérias-primas para a produção de biodiesel, que ainda carecem de estudos aprofundados, como o pinhão-manso, a macaúba, o amendoim, a canola, o babaçu, o buriti, óleos residuais, gordura animal (sebo), tucumã, sésamo, pequi, entre outros. “O problema central é que há pouco domínio tecnológico dessa biodiversidade”, comentou Duraes. “A Embrapa trabalha hoje com 20 espécies vegetais para a produção de biocombustíveis, mas ainda há uma infinidade de espécies a ser estudada”, avaliou.

José Ivo Baldani falou sobre a importância da fixação biológica de nitrogênio no cultivo da cana-de-açúcar e outros cereais. Segundo estudos desenvolvidos pela Embrapa Agrobiologia, a fixação biológica de nitrogênio pode fazer toda a diferença para a produção de soja e cana-de-açúcar, promovendo grande economia no uso de fertilizantes nitrogenados.

A apresentação de Baldani também enfatizou os efeitos positivos da inoculação de bactérias diazotróficas endofíticas em plantas micropropagadas de cana-de-açúcar, que promove o alongamento dos entrenós e a produção de antocianinas, aumentando o crescimento e a produtividade.
(Sara Nanni)
Fotos: Antoninho Perri

Ambiente

A água que limpa o etanol brasileiro

O químico da Unicamp Wilson de Figueiredo Jardim não acredita em sustentabilidade. Ele também não vê com bons olhos a definição de combustíveis limpos para etanol e demais biocombustíveis. O etanol de cana-de-açúcar pode até ser uma opção energética eficiente e de menor impacto, mas nem por isso podemos levar nosso cachorro para passear de carro e achar que somos benevolentes com o planeta.

“Sustentabilidade na verdade é um mito. Para viver o homem moderno precisa degradar”, declara Jardim em sua conferência na SBPC. O motivo gerador da crença de que os biocombustíveis são sustentáveis, segundo Jardim, é o fato de que apenas o produto é apresentado ao consumidor final. “Não estamos acostumados a enxergar os impactos que os processos anteriores ao produto causam ao meio ambiente.”

Esses processos são os mais variados possíveis. Temos em primeiro lugar o alto dispêndio de água necessário para gerar etanol. Jardim afirma que 500 litros de água são gastos para gerar um litro de etanol. “Esse combustível é limpo de tanto que lavam ele”.

Outro impacto é o gerado pelo transporte do etanol que é feito por veículos que queimam óleo diesel. Os ônibus que levam os trabalhadores rurais aos canaviais também são movidos por esse combustível fóssil altamente poluente. “Como é possível ter um combustível sustentável se ele é transportado queimando diesel?”, questiona Jardim.

Problemas como o trabalho degradante no corte de cana, como a erosão de solo e a substituição de culturas alimentares pela produção dos biocombustíveis também precisam ser levados em consideração por quem for analisar impactos ambientais. Jardim salienta que “os gases de efeito-estufa liberados na atmosfera pelos automóveis são apenas a etapa final de impacto”.

É claro que, mediante outras formas de combustíveis fósseis, o etanol se destaca. Além disso, o Brasil é um país estratégico e líder no que diz respeito à produção desse biocombustível. “Todos os indicadores técnicos da produção de etanol brasileira são positivos. Aprendemos a plantar e colher mais cana por hectare, melhoramos o tempo de fermentação, aumentamos o teor de sacarose. Mas certos fatores ainda não acompanharam esse crescimento”.

O que o professor Jardim sugere é o que já foi muito comentado nesses cinco dias de SBPC. Para ele, precisamos mudar a lógica econômica de consumo. “Para se consumir menos petróleo, carros mais econômicos são fabricados. Carros mais econômicos se tornam mais atrativos ao mercado de consumo e, por isso, vendem mais. A forte venda desses carros faz com que mais petróleo seja gasto”. No fim a conta não fecha.

Ainda sobre vendas de automóveis, Jardim conta que nos EUA a vedete atual são os carros compactos e econômicos. “O problema é que, se antes cada família tinha dois carros na garagem, agora são três.” O consumo de combustível que era para diminuir, só aumenta a cada dia.

Mas a mensagem final do químico da Unicamp é de esperança. “Acredito que chegará o dia em que meus filhos dirão que gostariam de fazer algo, mas que não o farão porque o planeta não conseguiria arcar com os impactos daquele ato”.
(Luiz Paulo Juttel)
Foto: Antônio Scarpinetti

Saúde Pública

Por que Raw trocou o paper pela bancada

O Brasil já é auto-suficiente em vacinas para difteria, tétano, coqueluche, raiva e hepatite – produzidas pelo Instituto Butantan – e também para febre amarela (Fiocruz) e BCG (Ataulpho Paiva). O Butantan está implantando fábricas de vacinas para rotavírus, dengue, pneumonia e hemophilus. “A sociedade faz uma cobrança não muito justa da comunidade científica, que é o resultado prático das pesquisas. Quer o produto à sua disposição, o que é difícil. Mas os cientistas não podem ignorar que o impacto de suas pesquisas está no resultado disponibilizado, de fato, para a população”, diz o professor Isaías Raw.

Raw tem sua trajetória ligada ao Instituto Butantan e lá chegou com certa idade, mas decidido a abandonar os papers para resolver problemas reais, dedicando-se à produção de vacinas da bancada de laboratório até a distribuição do produto final. “Por mais que as universidades pesquisem, o fato é que quem não faz de verdade, não sabe fazer. Fazer significa chegar a um bom produto, otimizar a produção para atender à demanda e por um preço que a sociedade possa pagar. Para mim, é um privilégio seguir trabalhando em programas de saúde pública”.

Hoje presidente da Fundação Butantan, depois de ter dirigido o instituto por longo tempo, Isaías Raw critica o modelo prevalente no Brasil, onde as instituições públicas esforçam-se no desenvolvimento de vacinas, enquanto a indústria, que pouco investe em pesquisas, limita-se a produzi-las em escala, sem compartilhar o lucro. “Separou-se a pesquisa, que comprova a viabilidade de uma vacina, e a indústria, que registra, produz e vende o produto. O ônus, que a sociedade paga, está do lado de cá, e o lucro do lado de lá”.

Isaías Raw lembra que assumiu o Instituto Butantan em crise, devido ao isolamento com as unidades da USP. “A porteira que nos separa era mais do que simbólica, só faltava colocar um canhão para que professores não entrassem na área dos pesquisadores, e vice-versa. Levou muito tempo para quebrar esta barreira e creio ter dado uma contribuição importante para isso. O Instituto não pode progredir sem alunos e pesquisa básica, que por sua vez não podem aprender sem a prática”.

A solução encontrada pelo professor chama a atenção inclusive fora do país. Ele optou por adotar no Instituto Butantan um misto das qualidades da empresa privada com as da instituição pública. “Criamos a fundação, que opera com a eficácia de uma empresa privada. Ela arrecada e reinveste o dinheiro que antes voltava para o governo e desaparecia. A diferença é que a nossa meta não é o lucro, mas a saúde pública. Já existe uma fila de empresas querendo comprar o Butantan – a parte da fundação, obviamente”.

Auto-suficiência – Isaías Raw explica que a questão da auto-suficiência surgiu nos testes com nossos soros antiofídicos, que se mostraram imprestáveis, inclusive os produzidos no Butantan. “Ou não prestavam, ou estavam contaminados por fungos e bactérias que eram injetados nas pessoas. Como soro não é bom negócio, toda a produção do terceiro mundo praticamente desapareceu. Quem for picado por uma cobra no norte da África, vai morrer”.

Com isso, no Brasil, passou a prevalecer o modelo que Raw denomina de “coca-cola”, em que o xarope é comprado, engarrafado, rotulado e vendido. “Você não controla e tampouco conhece o que está comprando e distribuindo para a população. Não há poder decisório sobre o preço, que é imposto pelo laboratório que recebe o royalty. Se não procurarmos produzir, não podemos progredir”.

Em relação aos lucros obtidos pela indústria, o professor dá o exemplo da hemophilus-B, contra pneumonia e meningite, altamente eficaz. Ocorre que apenas 20% das crianças do mundo recebem esta vacina conjugada, devido ao preço de U$ 2,5 dólares. Na África, recursos da Fundação Bill Gates – que é alvo de sérias críticas do pesquisador – permitiram reinvestigar a produção da vacina, fazendo com que seu preço caísse para US$ 0,40.

O próprio Isaías Raw foi chamado a Brasília para informar sobre a possibilidade de o Butantan produzir a Pneumococcus 7-valent. “O problema é que os países avançados querem vacinas até 23-valent, que custa US$ 159 por criança. Conseguimos uma parceria com a Universidade de Harvard para produzir uma vacina completamente diferente, que não deve passar de US$ 1 a dose, resolvendo assim o problema do Brasil e do resto do mundo”.

Produção – Segundo o professor, as fábricas do Butantan estão reunindo capacidade para produzir 160 milhões de doses de DTP (difteria, coqueluche e tétano) por ano, começando a ganhar o mercado asiático; de adjuvantes para 10 bilhões de doses de Influenza, que é muito mais do que a necessidade; e de 10 milhões de doses de coqueluche para jovens. “A produção tem permitido revacinar de difteria os idosos acima de 60 anos. A nossa vacina contra a raiva é de maior rendimento no mundo e logo produziremos a vacina contra a gripe aviária”.

Isaías Raw acrescenta que a produção de vacinas já reduziu a mortalidade infantil à aproximadamente metade. “A outra metade não é devida a doenças infecciosas. No Brasil, ocorrem por ano a morte de 50 mil crianças no primeiro dia de vida devido à imaturidade do pulmão, simplesmente porque não conseguem respirar quando choram. Desenvolvemos um sulfactante que aguarda aprovação da Anvisa e que pode salvar até 30 mil bebês”.

O Butantan também está desenvolvendo uma vacina contra rotavírus, mediante acordo com a Índia e a China – o que significa imunizar metade das crianças do mundo. “Nós tomamos uma vacina cara, pela qual se cobra 15 dólares por duas doses, sendo que ela é monovalente e temos pelo menos cinco tipos de rotavírus no Brasil. Esta vacina vai custar 9 dólares por três doses e terá cinco vacinas misturadas”.

Pela vacina importada contra Influenza, observa Isaías Raw, o governo paga 3 dólares por dose, no modelo de que chama de “coca-cola”. “Quando nossa planta industrial ficar pronta, poderemos baixar este custo à metade. Não sei o que o governo fará com o dinheiro economizado, mas gostaria que imunizasse também as crianças da escola primária. Assim, elas não vão levar gripe para casa, o que significa imunizar toda a família – e os idosos não terão mais otite e nem irão para o hospital com pneumonia”.
(Luiz Sugimoto)
Foto: Antoninho Perri

Conjuntura

Crestana prega produção integrada e mais
investimentos em C&T na agricultura

A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuária) foi criada em 1973 e está vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, atuando em quase todos os Estados brasileiros através de 38 unidades de pesquisa. Sua missão, voltada para viabilizar soluções para o desenvolvimento sustentável do espaço rural, está também direcionada à criação de novas tecnologias envolvendo a produção de biocombustíveis - etanol e biodiesel. “Nós precisamos continuar fazendo ciência de excelência e comprometida com os grandes desafios que temos hoje no país”, afirmou Sílvio Crestana, diretor-presidente da Embrapa, na conferência “O Brasil do Futuro e o Papel de uma Política Sustentável de Produção de Biocombustíveis”, que aconteceu na manhã de hoje (18).

Crestana chamou a atenção para o fato de, no Brasil, terem diminuído consideravelmente os investimentos em C&T na agricultura. “É como se investir em agricultura tivesse perdido a importância”, lembrando a relevância socioeconômica que tem o agronegócio brasileiro, que é a principal fonte de divisas internacionais, representando 26% do PIB, em 2007, e sendo responsável por 37% dos empregos existentes no país.

No contexto nacional, o novo desafio da agricultura é aliar a produção de alimentos à produção de energia e fibras. “Precisamos viabilizar sistemas de produção integrados e sustentáveis, e que sejam viáveis dos pontos de vista econômico, social e ambiental, promovendo a inserção do Brasil no cenário mundial de forma soberana”, destacou o diretor-presidente da Embrapa. Ele elencou uma série de benefícios no investimento em biocombustíveis, partindo da constatação de que o Brasil é líder mundial no uso de energia de fonte renovável, totalizando 46,4% de toda energia consumida. Além dos aspectos econômicos positivos - como curto ciclo de produção, preços inferiores aos do barril de petróleo, fortes impactos na balança comercial -, a produção de biocombustíveis gera ganhos ambientais - como a diminuição das emissões de dióxido de carbono e maior seqüestro de carbono - e sociais relacionados à geração de novos empregos e melhor distribuição de renda.

O conferencista destacou ainda o investimento da Embrapa em biotecnologia e biossegurança, citando pesquisas sobre a expressão de gene tolerante à seca na soja, que está em fase de experimentação com resultados até agora animadores.

Questionado por uma estudante de mestrado da Universidade Federal de São Carlos a respeito das condições deploráveis de trabalho nos canaviais, Crestana disse que, na expansão dos biocombustíveis, a dimensão econômica não pode suplantar a social. Ele lamentou que a exploração no campo seja uma realidade nacional, e sugeriu que sejam criados um selo socioambiental e marcos regulatórios que garantam a qualidade nos processos de produção do etanol.

Com relação à expansão da produção de biocombustíveis, Crestana informou que ainda existem 90 milhões de hectares agricultáveis no Brasil, nos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Bahia, Piauí, Maranhão e São Paulo. Ele contou que a Embrapa busca incrementar a área de PD&I, com parceiros estratégicos em universidades e institutos de pesquisa em todo o país. Um desafio apontado por Crestana é a gestão das pesquisas em lugares onde não há tradição de pesquisa científica e corpo técnico especializado, nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Segundo Crestana, a Embrapa não está limitada ao território nacional. Parcerias internacionais têm garantido a presença dessa instituição em outros países, além da implantação de escritórios na Venezuela, Gana, nos Estados Unidos e na Europa.
(Sara Nanni)
Foto: Antoninho Perri

Alimentos x Biocombustíveis

Pesquisador da Embrapa vê ‘teatro e
terrorismo’ em críticas contra o Brasil

Um misto de terrorismo, teatro técnico e interesses políticos tem sustentado as críticas direcionadas ao Brasil em torno do tema “alimentos versus biocombustiveis”. A opinião é de Geraldo Martha, pesquisador da Embrapa Cerrados, que coordenou conferência sobre o tema no último dia da SBPC.

Segundo o pesquisador, o caso da cana-de-açúcar é emblemático para explicar o que ele classificou de “mítica”. “Temos uma área em torno de 8 milhões de hectares de cana-de-açúcar. Considerando a área de pastagem e a área de lavouras no Brasil, chegamos perto de 300 milhões de hectares. Falar que expandir a produção de cana [para fabricação de etanol], de 8 milhões para 8,5 milhões num universo de 300 milhões gera insegurança alimentar é uma questão matemática”, exemplifica.

Martha esclarece que a alta recente nos preços dos alimentos se deve principalmente à elevação do preço do petróleo. O pesquisador pondera, porém, que fatores de ordem estrutural, “como a demanda chinesa nas últimas décadas por alimentos de alto valor agregado (carnes, leite e frutas)”, e de ordem cíclica a curto prazo, “como colheitas ruins na Austrália e Ucrânia”, também contribuem para a inflação alimentícia. “Os preços dos alimentos subiram de uma maneira drástica neste último um ano e meio. Mas o chinês não começou a comer carne de ontem pra hoje. O petróleo foi a grande mola propulsora desse aumento. Com o aumento do petróleo, você tem aumento no frete, aumento no processamento e aumento nos produtos da agricultura moderna, como fertilizantes, inseticidas, herbicidas etc…”, completa.

O chefe da Embrapa Informática, Eduardo Delgado Assad, que também participou da conferência juntamente com Napoleão Beltrão, da Embrapa Algodão, explica que é preciso conciliar a produção de etanol com a de alimentos, compartilhando a mesma opinião do engenheiro de alimentos e reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge. Tadeu proferiu Conferência sobre o tema na quinta (17).

“Precisamos disciplinar a terra na produção de biocombustíveis por meio de um zoneamento que defina áreas para a produção de energias limpas e para a produção de alimentos”, continua Assad.

Produtividade – Para os pesquisadores da Embrapa, o Brasil tem sido extremamente eficiente na produção de alimentos e contribuído decisivamente para atenuar os problemas mundiais de alimentação através da exportação de excedentes cada vez maiores. “O Brasil tem aumentado consistentemente, nas últimas décadas, tanto a produção de biocombustíveis, como também a produção de grãos oleoginosos e de carnes”, conta Martha.

Pesquisa realizada pela Assessoria de Gestão Estratégica do Ministério da Agricultura, citada pelo pesquisador da Embrapa, mostra que a taxa de crescimento da produtividade total da agricultura brasileira nas últimas três décadas foi superior a 4,5% ao ano. “Em países de agricultura desenvolvida, como EUA e países da Europa, a taxa de crescimento da produtividade total de fatores é da ordem de 2% a 2,5% ao ano”.

Esses ganhos em produtividade, conseguidos através do aprimoramento de pesquisas agrícolas, tiveram efeitos importantes não só pelo lado social e econômico, mas também pela questão da preservação ambiental. “Se nós tivéssemos mantido a produtividade da década de 70 seria necessário o cultivo de 60 milhões de hectares a mais do que nós cultivamos hoje. Ou seja, é a pesquisa brasileira que tem efeito positivo e está ajudando não só pelo prisma social e econômico. Note, por exemplo, o benefício de termos deixado de desmatar 60 milhões de hectares”, finaliza.

(Sílvio Anunciação)

Saúde

Dieta rica em frutose e alterações renais

Estudo identificou alterações renais decorrentes do consumo de dieta rica em frutose – adoçante natural extraído de frutas – em ratos espontaneamente obesos. A pesquisa, orientada pela professora da Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Unicamp Fernanda Klein Marcondes foi apresentada durante o simpósio “Diabetes, Hipertensão e Exercício Físico”, realizado na tarde desta sexta-feira (18).

Pelo estudo, os animais que receberam a dieta de 67% de carboidratos, durante 12 semanas, apresentaram lesões renais antes de o diabetes melito estar estabelecido no organismo. Os resultados demonstraram a importância de se investigar as funções dos rins em pacientes chamados pré-diabéticos. Segundo Fernanda, um dos sintomas do diabetes quando já estabelecido no organismo é, justamente, o aumento do volume urinário causado por disfunções.

Além disso, Fernanda aproveitou a oportunidade para defender a importância dos modelos experimentais com o objetivo de se obter dados impossíveis de serem mensurados em humanos.

Outra pesquisa, também orientada pela professora, confirmou a importância do exercício físico na terapêutica de diabetes e hipertensão. Desta vez, o diferencial apresentado pela fisioterapeuta Tatiana Sousa Cunha, que defendeu sua tese de doutorado na Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP), seria que o exercício físico de intensidade leve ou moderada seria o recomendável para este perfil de pessoas, desde que, é claro, seja supervisionado.

A pesquisa apontou ainda que o exercício físico regular também pode diminuir as taxas de ansiedade e depressão, fatores que poderiam agravar o estado clínico dos portadores destas enfermidades. A primeira etapa do estudo, dois grupos de ratos – um para controle e outro sedentário – foram submetidos ao treinamento físico aeróbio de baixa intensidade.

Durante dez semanas, em cinco dias da semana, o grupo de animais utilizados para controle fez testes de esforço de esteira ergométrica. Graças a esta fase da pesquisa foi possível aferir parâmetros de bombeamento sangüíneo, a fração de ejeção e de encurtamento do ventrículo esquerdo. No grupo sedentário, a função do órgão piorou, ao contrário do caso dos treinados, que melhorou, ainda que não tenha sido eficaz o suficiente para alcançar os valores iniciais.

O estudo contemplou uma segunda etapa em que 30 pacientes diabéticos e hipertensos, da faixa etária de 65 anos, fizeram exercícios físicos por 12 semanas, três vezes por semana, por 60 minutos. Além dos tradicionais parâmetros cardiovasculares e metabólicos, a avaliação contemplou avaliações do estado emocional dos voluntários.

Embora sejam conhecidos os benefícios do exercício físico regular para auxiliar no controle da pressão arterial, o estudo serviu para comprovar a eficácia da intensidade leve e moderada para a redução das taxas de colesterol e glicemia, e ainda melhorar os índices de ansiedade e depressão.
(Raquel do Carmo Santos)
Foto: Antoninho Perri

Políticas públicas

Academia, sociedade e educação ambiental

A preservação ambiental deixou de ser  velho desconhecido para as pessoas comuns. Os projetos de educação ambiental se ampliam a cada dia tanto entre estudantes e pesquisadores da academia quanto na comunidade de um modo geral. O cenário na academia é positivo, desde a oferta de disciplinas relacionadas ao assunto quanto às ações efetivas criadas para colocar em prática as discussões realizadas por grupos gestores, acredita o professor de saneamento ambiental do Centro de Ensino Tecnológico de Ensino Superior Tecnológico (Ceset) Sandro Tonso. Coordenador do simpósio “Educação Ambiental e ambientalização da universidade”, realizada nesta sexta-feira (18), ele disse que a Universidade não pode ficar fora dessa discussão. “E a realização da Reunião da SBPC deve intensificar essa discussão”, acrescentou.

O simpósio, segundo Tonso, foi um momento importante para que os professores João Frederico (Unicamp), Haydée Torres de Oliveira (Ufscar) e Carlos Fernando (Unicamp) apresentassem os projetos e as disciplinas desenvolvidos na academia e discutissem, com o público, sobre o que se pretende da comunidade universitária, seja na graduação, na pós-graduação ou na administração. “Precisamos saber qual a direção que a Universidade quer”, disse.

Na sua opinião qual é a direção?
A vontade é que se tenha a discussão em qualquer curso. Não vamos transformar todo mundo em educador ambiental, mas que todo mundo saiba do que estamos falando. Saiba que a questão envolve a dimensão econômica, política, cultural, técnica, social de modo geral. Se a gente conseguisse que cada graduado, cada técnico, cada servidor entendesse essa dimensão ambiental como uma dimensão complexa que envolve outras dimensões, estamos indo numa dimensão boa de atender uma demanda da sociedade.

Quais são os resultados obtidos até o momento? Qual a resposta da comunidade?
Entre estudantes a resposta é muito boa. Seja em oferta de disciplinas de educação ambiental, que temos várias. Normalmente, existe uma resposta de comprometimento de estudantes com as questões socioambientais que aparecem na sociedade. Eles acabam direcionando sua formação para questão socioambiental seja qual for sua área.

Acabei uma disciplina neste semestre com estudantes da música, ciências sociais, economia, biologia, saneamento, várias áreas. É trabalho de formiguinha, que vai devagarzinho. Outra conseqüência que gostaria de ver na Unicamp é que professores, pesquisadores e funcionários técnicos que já têm um trabalho nesta área começassem a se conversar. Não para criar nenhuma faculdade nova, núcleo novo, mas para criar uma rede de pessoas de qualquer função que esteja disposta a conversar sobre questão socioambiental e educação ambiental. Essa é uma expectativa sempre. Que toda ação sempre vai nessa direção de fortalecer as relações.

O senhor vê um avanço em relação às ações também?
É mais uma importância da criação de redes. Tem um pessoal no Ciclo Básico fazendo um trabalho de resíduos muito bacana. Parece-me que vai virar política pública da Reitoria. Ótimo. Tem disciplinas esparsas. Sinto que existe um aumento no número de ações. A criação de uma rede tem duas vantagens: uma de a gente se fortalecer e a outra de não ter ninguém que seja dono da aula. Que não tenha uma concepção de educação ambiental, uma concepção de meio ambiente dominante na universidade. Cabem todas as concepções, desde que a gente converse.

O fato de discutir este tema na SBPC pode favorecer a construção dessa rede?
O objetivo é estabelecer um reforço no projeto. Importante. A realização da SBPC fortalece esta discussão. A SBPC é indiscutivelmente o espaço ideal, onde se discute concepção de conhecimento, de ciência e a direção para onde estamos indo. O importante seria conseguir maior participação da sociedade nessas discussões. A academia não discutir questão socioambiental sem cruzar o olhar com outros saberes que não são científicos. Mas é uma direção que a SBPC também tem.

Como o senhor vê a educação ambiental em nível de País?
Acabei de sair de um almoço com o antigo diretor ambiental do Ministério do Meio Ambiente Marcos Sorrentino. Ele propôs uma política nacional de educação ambiental que está em franco crescimento. A visão de país é muito boa. Não significa que podemos sentar porque está tudo resolvido, mas descobrimos potenciais inimagináveis. Sabemos de educação ambiental no Acre, no interior de Mato Grosso, no interior de diversos locais. E todos estão conectados. A gente tem feito essa rede de coletivos de forma muito bacana. Fizemos, há dois meses, um Encontro Nacional dos Coletivos e percebi que estamos numa direção boa.

E isso é fruto de políticas públicas?
Tudo isso é fruto de políticas públicas. Mas, ao mesmo tempo, é sugestão de novas públicas. Vamos tirar idéias para aprimoramento de políticas públicas.
(Maria Alice da Cruz)
Foto: Antônio Scarpinetti

Ensino

Um novo modelo de universidade em debate

As discussões relativas à necessidade de mudanças no ensino para acompanhar as transformações na prática científica e na realidade contemporânea foram uma temática privilegiada em algumas das discussões desta Reunião Anual. Uma das propostas e também exemplo prático mais radical nesse sentido talvez tenha sido apresentada na manhã de hoje (18) no simpósio “UFABC: Uma nova proposta de Universidade”.

O projeto pedagógico e avaliação sobre os primeiros anos de funcionamento da Universidade Federal do ABC (UFABC) foi apresentando por um dos seus idealizadores, Luiz Bevilacqua, atualmente pesquisador da instituição. O engenheiro tem uma longa história na elaboração e implementação de projetos diferenciados de ensino superior, tendo acompanhado a criação da COPPE da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Unicamp.

Na apresentação do conferencista, Ennio Candoti fez questão de destacar que a criação de uma universidade, principalmente a partir de um novo modelo, é um grande desafio por ser marcadamente um projeto político e, ao mesmo tempo, de grande responsabilidade nos que diz respeito ao rigor científico.

“Nós tivemos a vantagem de começar o projeto pedagógico do zero porque as mudanças dentro das universidades não apenas no Brasil, mas no mundo, são muito difíceis. Prevalece o conservadorismo”, contou Bevilacqua.

Segundo o pesquisador, o mundo contemporâneo nos apresenta um desafio de um novo paradigma na educação. Não seria mais possível, segundo ele, basear-se nos modelos de aprendizado e pesquisa que surgiram com a ciência moderna. “É preciso uma nova configuração de conhecimento, que seja marcada pela interdisciplinaridade, pela ampliação da liberdade de trajetórias dos estudantes, por currículos e conteúdos mais abertos”, explicou.

Além disso, seria necessária uma relação mais estreita com as realidades nacional e regional nas quais estão inseridas as instituições de ensino. “A UFABC é um modelo adequado para a realidade brasileira e da região metropolitana de São Paulo e pode inspirar outros projetos. Contudo, isso não significa que todo mundo deva fazer igual”, pondera.

Uma das diferenças da estrutura e funcionamento da UFABC em relação às outras universidades é a não divisão por departamentos, mas em três grandes centros: Ciências da Natureza; Humanidades, Matemáticas, Computação e Cognição; e Engenharia. Outra é a liberdade do aluno para escolher sua especialidade após freqüentar os primeiros anos. O aluno cursa um curso de três anos que o torna bacharel em ciência e tecnologia, depois pode ou não seguir seus estudos, especializando-se em alguma das engenharias ou nos cursos de algumas das ciências naturais.

E, ainda, algumas aulas são ministradas de forma conjunta por professores. Existe uma disciplina de base de experimentação em ciências naturais, na qual os alunos têm liberdade para criar e desenvolver um projeto de sua escolha já no primeiro ano. Também existe a categoria de professores conferencistas, responsáveis por disciplinas de temas profissionalizantes, que não precisam ter currículo acadêmico, mas comprovada experiência prática na disciplina ministrada.

Mas todas essas mudanças estão sendo bem aceitas e incorporadas pelos estudantes, corpo docente, pais e alunos? Segundo Bevilacqua, ainda existe níveis de resistência entre os envolvidos, já que a proposta envolve uma mudança na própria visão de ensino, aprendizado e prática profissional. “Nosso modelo valoriza a capacidade e não o diploma; a criatividade, auto-confiança e busca pelo conhecimento; e não a passividade diante de conhecimentos prontos”, apontou.

Existem outras novidades na estrutura, modelo pedagógico e nos próprios cursos oferecidos pela UFABC, que não foram trazidas nesse texto, apesar de abordadas na conferência. Mais informações sobre o projeto pedagógico da UFABC podem ser obtidas no site http://www.ufabc.edu.br/.

Convênio

Moto elétrica deve estar no mercado em 2009

Um veículo que custe em torno de R$ 3 mil, que possa ser financiado, que não faça ruídos, não cause poluição e que possa estar à disposição do público em 2009. Pode parecer um sonho, mas não é. Essa é a moto elétrica, tipo scooter, que a CPFL e o Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe) da Unicamp desenvolverão no decorrer deste ano. “A nossa meta de custo é fazer com que esse veículo seja competitivo com a moto tradicional à gasolina. Não vai poluir e vai fazer bem ao bolso de quem compra porque tem um custo por quilômetro operacional muito menor que o da gasolina”, afirmou o vice-presidente de Gestão de Energia da CPFL, Paulo Cezar Coelho Tavares. Hoje (18) à tarde, no estande da CPFL, no pavilhão da ExpoT&C, Tavares e José Tadeu Jorge formalizaram o convênio através da assinatura.

O convênio visa romper duas barreiras. A primeira é fazer com que o veículo tenha uma autonomia maior, em torno de 150 quilômetros e a segunda, o aumento da velocidade. Atualmente a moto tem limitação de 50 quilômetros e a velocidade está limitada em 60 km/h. Além disso, o tempo atual de recarga da bateria é de 4 horas e o objetivo é reduzi-lo para 2 horas. “Essa moto tem baixo custo de transporte, na faixa de 1 centavo por quilômetro. O objetivo é desenvolver uma nova tecnologia para melhorar a bateria e também a economicidade do projeto, fazendo com que essa bateria dê mais autonomia, mas a um custo que compense”, avaliou Tavares.

O vice-presidente acrescentou que a CPFL tem como uma de suas diretrizes empresarias a questão do respeito e preservação do meio ambiente e é sabido que nas cidades o maior vetor de poluição e ruído é a questão do transporte. “Temos interesse no desenvolvimento das tecnologias associadas a transporte elétrico”, afirmou.

Para Tavares, a escolha da Unicamp como parceira é natural devido ao intenso relacionamento que a CPFL tem com a universidade. “Já executamos 16 projetos com valor global de aproximadamente R$ 16 milhões e que foram concluídos com êxito. Estamos com 11 projetos em desenvolvimento, com investimentos na ordem de R$ 11 milhões”, esclareceu.
(Jeverson Barbieri)
Foto: Antônio Scarpinetti

Atividade

Nos pôsteres, os primeiros
passos dos cientistas

Muitos dos pôsteres de iniciação científica podem não gerar artigos científicos (papers), mas o fato de expor no mesmo espaço que pesquisadores e pós-graduandos num evento como a 60ª Reunião Anual da SBPC é uma experiência valiosa, na opinião do professor da Unicamp e coordenador da Sessão de Pôsteres da SBPC, João Frederico Meyer. “Poucos viram publicação formal como um periódico, mas em compensação contribuem para a formação dessas pessoas. E quem faz um trabalho de iniciação científica nunca mais é o mesmo. Observamos o entusiasmo deles. É uma chance de interagir com outros pesquisadores. É uma festa da ciência”, acrescenta.

O fato de ter duas horas para expor seu pôster de forma alguma inibiu a inscrição de jovens cientistas na sessão. A idéia foi permitir que a cada dia do evento os grupos tivessem a oportunidade de mostrar suas investigações acadêmicas. “A idéia foi fazer com que o pesquisador ficasse ao lado pôster. Além de dar oportunidade para um número maior de participantes. “Não teria lugar para colocar mais de 3 mil pôsteres”, explicou Meyer.

O resultado foi o esperado?
Meyer – A SBPC consegue se renovar no sentido de uma variedade quase incrível de assuntos, locais de origem representados, de alcance dos trabalhos. Nesse aspecto, a SBPC continua a manter o mesmo nível. Posso dizer que poucos se tornarão artigo para uma publicação formal, com classificação na Capes, mas em compensação contribuem para a formação desses jovens. Quem faz um trabalho desses nunca mais é o mesmo. Alguns são muito bons. E o entusiasmo com que falam conosco é fantástico. Esta sessão é uma forma de interação entre os alunos de iniciação e os pesquisadores. Eles saem das sessões conversando. E, no dia seguinte, encontramos expositores do dia anterior visitando a mostra.

Teve algum trabalho de iniciação científica que chamou sua atenção?
Meyer – Passaram vários trabalhos interessantes. Por exemplo, teve um conjunto de pôsteres da UNB, da área de serviço social, em que cada aluno analisou a Seguridade Social de um determinado país da América Latina. O que eles expuseram aqui é o retrato de como está a seguridade social no Continente. Outro, da Universidade Estadual do Ceará (UECE), “De volta para casa: a saga das costureiras”, mostrou a jornada de trabalho de mulheres que são demitidas por indústrias têxteis para trabalharem como autônomas em casa. As alunas perceberam que, apesar de saírem perdendo, as costureiras preferem trabalhar em casa, por causa da atenção à família e pela flexibilidade do tempo. Mas houve muitos outros de alta qualidade.

A 60ª Reunião surpreendeu também pelo número de jovens participantes?
Meyer – Foram mais de 2.500 jovens. Alguns trabalhos estão bem na fronteira do que é iniciação e o que é pesquisa. Também foram apresentados 800 pôsteres de pesquisa.
(Maria Alice da Cruz)
Foto: Antônio Scarpinetti

Clima

Clima, tecnologia
e recursos humanos

O Brasil está hoje entre os dez primeiros países que detêm tecnologias de ponta na área de avaliação das mudanças climáticas. E a aquisição de um supercomputador pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), certamente colocará o País numa posição mais vantajosa. A afirmação é do matemático Pedro Leite da Silva Dias, do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Dias proferiu a conferência “A Importância da Tecnologia na Determinação das Mudanças Climáticas e seus Impactos”, na manhã desta sexta-feira.

Durante sua explanação, o matemático abordou dois aspectos importantes. Um deles é a detecção da mudança climática, por meio da qual a tecnologia está presente na instrumentação e no desenvolvimento de satélites. O outro aspecto são as projeções, uma vez que não fossem os computadores de altíssimo desempenho não seria possível definir cenários e analisar as incertezas desses cenários. “Essa incerteza é analisada através da realização de um número muito grande de simulações buscando justamente identificar os principais fatores que determinam essa incerteza nos cenários climáticos”, afirmou Dias.

Portanto, segundo o matemático, do ponto de vista dos equipamentos os pesquisadores envolvidos nessa área não podem se queixar. Outro ponto considerado importante pelo conferencista é que no último relatório do painel intergovernamental de mudanças climáticas, um número significativo de publicações, sobretudo nos capítulos referentes à região tropical, era oriundo do Brasil ou de trabalhos de projetos internacionais que detêm uma liderança brasileira, como é o caso do programa da Amazônia.

Porém, Dias foi enfático ao ressaltar a necessidade de novos recursos humanos para a área. “É preciso criar programas de pesquisas que visem atrair jovens talentos que temos no Brasil. Talentos não faltam. Um jovem cientista não pode viver apenas com bolsa de estudo. Isso é muito precário”, avaliou.
(Jeverson Barbieri)
Foto: Antônio Scarpinetti

Organização

Mayana Zatz propõe revista
que divulgue resultados negativos

Coube à geneticista Mayana Zatz, pró-reitora de Pesquisa da USP e uma das maiores especialistas em pesquisas com células-tronco do Brasil, apresentar o que talvez seja a proposição mais polêmica do último dia da 60ª Reunião Anual da SBPC. Ao falar sobre a importância de se disseminar informações precisas e conseqüentes sobre o tema, ela defendeu a criação de uma revista científica para a divulgação dos resultados negativos obtidos pelos estudos desenvolvidos nessa área do conhecimento, que seja acessível aos leigos. “Os cientistas e as publicações especializadas estão acostumados a tornar público apenas os resultados positivos dos trabalhos. Penso que também é necessário divulgar os resultados que não se mostraram promissores”, afirmou.

De acordo com a especialista, a divulgação dos estudos que não obtiveram resultados satisfatórios com células-tronco é importante tanto para orientar o trabalho de outros grupos, quanto para mostrar à sociedade em que estágio as investigações se encontram. “Uma única pesquisa que apresente resultados auspiciosos pode significar pouco diante de diversas outras na mesma linha que não chegaram a bom termo”, comparou. A pesquisadora considera que seus pares precisam começar a se preocupar com esse outro lado da informação, embora ela reconheça que a comunidade científica depende do interesse das publicações, que normalmente querem tornar públicos apenas os artigos que trazem dados promissores.

Questionada se os cientistas têm o hábito de submeter às revistas artigos sobre pesquisas com células-tronco que não deram certo, a geneticista respondeu que não sabe se isso costuma acontecer. “Mas se tivermos uma publicação nesse sentido, quero crer que os pesquisadores não se furtarão de fazê-lo”, inferiu. A mídia, conforme Mayana Zatz, também precisa saber filtrar melhor as informações, para não criar falsas expectativas na população. Ela revelou que toda vez que sai uma notícia dando conta de que um determinado estudo nessa área obteve bons resultados, o telefone do seu laboratório recebe milhares de ligações de pessoas que chegam ao exagero de se oferecer como cobaias. “As pessoas precisam compreender que embora uma experiência tenha dado certo, isso não significa que estamos perto de um possível tratamento”, alertou.

A geneticista sugeriu, ainda, que a futura Rede Nacional de Terapia Celular, cuja criação foi anunciada no próprio encontro da SBPC pela coordenadora geral de Fomento à Pesquisa em Saúde do Ministério da Saúde, Márcia Luz da Motta, crie um sítio na internet para divulgar tanto os resultados positivos quanto negativos dos estudos envolvendo células-tronco. No entender da médica hematologista Ângela Cristina Malheiros Luzo, responsável técnica pelo Banco de Sangue de Cordão Umbilical do Hemocentro da Unicamp, a informação de fato precisa ser qualificada para que não infle as esperanças da sociedade. “Quando a gente fala de pesquisa, os resultados obtidos por um grupo precisam ser confirmados por outros grupos, por meio dos mesmos dados. Um único resultado pode não significar muito”, reforçou.

De acordo com ela, é preciso lidar com muito cuidado com as informações relativas às pesquisas com células-tronco, pois o tema mexe com a expectativa das pessoas que são portadoras de doenças incuráveis. “Quando se abre a possibilidade de cura de uma dessas enfermidades, isso naturalmente cria esperanças nesses pacientes. Por isso as informações têm de ser muito bem filtradas. Eu também estou cansada de receber telefonemas de pessoas se oferecendo para serem cobaias. É preciso deixar bem claro que o ser humano não pode ser cobaia. Há todo um protocolo de segurança e todo um processo ético que envolvem as pesquisas. Esses e outros aspectos têm que ser melhor explicitados à população”, completou.

Para Mayana Zatz, alguns estudos envolvendo células-tronco são mais promissores que outros. Nenhum deles passou ainda da fase pré-clínica para a clínica, ou seja, ainda não se chegou aos testes com seres humanos. “Há muita divergência sobre o tempo que levaremos para sair de um estágio para o outro. Quem faz pesquisa básica fala em algo em torno de dez anos. Quem já está trabalhando na etapa pré-clínica fala em três anos. Eu prefiro ficar no meio do caminho”, ponderou a pesquisadora, cujo trabalho está mais centrado no uso de células-tronco adultas obtidas por meio da medula óssea, sangue de cordão umbilical, tecido adiposo e polpa dentária.
(Manuel Alves Filho)
Foto: Antônio Scarpinetti

Neurociência

O que estou vendo é verdade?

Desvendar os mistérios de cérebro humano é uma aventura. Tem até neuronavegador para isso. Andando com um pequeno sensor sobre o crânio, você pode ver por meio de imagens de ressonância magnética, quais são as áreas cerebrais que comandam a fala, o movimento das pernas, a visão e a audição. Parece coisa de ficção científica. Mas não é!

No estande da Cooperação Interinstitucional de Apoio a Pesquisas sobre o Cérebro (Cinapce), os visitantes puderam interagir com esse sistema desenvolvido por pesquisadores de Física Médica da USP de Ribeirão Preto. O grupo faz parte de neurocientistas paulistas coordenados pelos professores Li Li Min e Fernando Cendes, do Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp.

“Ao acionar a área do braço, damos pequenas descargas elétricas no modelo para simular o movimento”, explicou Li Li Min.

No estande da Cinapce, os monitores também tiraram dúvidas sobre epilepsia. De acordo com Nayla Fabiana Ananias, é comum as pessoas perguntarem se a saliva é contagiosa e se é verdade que a pessoa morre quando a “língua enrola”. “Procuramos desmistificar essas questões e mostrar que epilepsia tem tratamento”, comentou a aluna de iniciação científica na área de genética humana da Unicamp.

Além dessas atividades, cada visitante concorre a uma caneca da Assistência à Saúde de pacientes com Epilepsia (Aspe).

Outro teste proposto no espaço montado dentro do estande da Fapesp é ler nomes de cores trocadas, saber se as bolinhas estão se movendo ou identificar dois rostos ou um cálice numa imagem. O olho engana e o cérebro acredita. Será?

(Edimilson Montalti)

Fotografia

Entre um sobrevôo no campus e a despedida

O sobrevôo do helicóptero prefixo PT-YZE no campus central da Unicamp, na última quarta-feira, resultou em mais de 500 imagens gerais da Universidade. Dentre outras, mostravam fotografias do espaço-referência da 60ª Reunião da SBPC. Elas representam parte do físico da Universidade nesta sexagésima edição do evento, uma experiência histórica, cujo lançamento foi embrionariamente estabelecido em Campinas.

No epicentro da planta baixa, vista pela lente do fotógrafo Antoninho Perri, aparecem as pirâmides em estrutura metálica, montadas para abrigar exposições, oficinas e atividades culturais. Ao lado, o Ginásio Multidisciplinar, espaço de eventos da cidade e do país, com faculdades e institutos plotados como que ramificações para a constituição do todo.

Último dia de festa na terra, e por que não dizer no céu, a SBPC deixará saudade à população universitária. ‘Pôr no fim’ é o termo do dicionário que se refere à ‘despedida’. Será de fato uma despedida, ainda que momentânea, após uma semana de atividades de geração de conhecimento, um dos princípios universitários. O próximo sobrevôo acontece no imenso Amazonas. E é assim que também a ciência avança.
(Isabel Gardenal)
Fotos: Antoninho Perri
Edição de imagens: Hélio Costa Júnior

Organização

Anabolizando índices e a aceitação social

O uso de esteróides anabolizantes tem aumentado consideravelmente entre jovens de 8 a 15 anos. A principal razão é a aceitação social. Pessoas da área de segurança também têm tomado doses dessas substâncias para melhorar o desempenho profissional. Atletas amadores e de elite se valem dos anabolizantes para vencer campeonatos e ganhar medalhas. Entretanto, o preço pago pelo uso dos anabolizantes orais ou intramusculares é muito alto e não há, cientificamente, nada que comprove sua eficácia.

Foi o que demonstrou a professora e pesquisadora Fernanda Klein Marcondes, do Departamento de Ciências Fisiológicas da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) da Unicamp, hoje (18) pela manhã durante a conferência “Esteróides anabolizantes: mitos e verdades”.

De acordo com Fernanda, estudos recentes demonstram que o uso de esteróides anabolizantes não traz grandes efeitos aos usuários, além do ganho de massa muscular causado pelo acúmulo de proteína no músculo. No caso dos atletas, o treino associado à dieta é que faz a diferença. “Você vê pessoas bombadas e é inegável que associe os anabolizantes ao ganho de força e resistência. Entretanto, pesquisas comprovam que é o exercício que aumenta o desempenho do atleta”, disse Fernanda.

A ligação entre esporte e saúde passada pela mídia é uma de suas preocupações da pesquisadora. “A trapaça no esporte é antiético. Já pensou se soubéssemos que Pelé usava anabolizantes? Vários atletas perderam suas medalhas olímpicas por causa disso. Que ídolos são esses?”, indagou Fernanda.

No caso terapêutico, doses pequenas e espaçadas de anabolizantes são recomendadas por médicos para pacientes com anemia, HIV, politraumatismo ou pós-operatórios que necessitem de ganho de massa muscular. Entretanto, para a pesquisadora, há na cultura brasileira uma disseminação do uso indevido dos esteróides por questões estéticas e não de saúde.

Jovens injetam doses cavalares de anabolizantes para conseguir rapidamente um corpo “sarado”. Segundo a pesquisadora, na adolescência o corpo ainda está em amadurecimento, produzindo testosterona. Para aparecer no organismo, os efeitos do uso de anabolizantes demoram um tempo, assim como os seus efeitos colaterais.

Estão entre os efeitos das doses excessivas de anabolizantes: impotência, infertilidade, perda da libido, tumores no fígado, distúrbios psíquicos e predisposição ao suicídio, aumento da agressividade e da mama nos homens e à ruptura de tendões. Algumas são reversíveis, outras não.

(Edimilson Montalti)

Balanço

SBPC encerra com saldo positivo na Unicamp

Os professores da Unicamp Eduardo Guimarães e Marcelo Knobel, que coordenaram respectivamente a 60ª Reunião da SBPC e a SBPC Jovem, classificaram como muito positivo o encontro, que encerra hoje no campus de Campinas. O evento, que reuniu cerca de 12 mil pessoas, pode ter mudado o paradigma da Universidade que, agora, acresce ao conhecimento também a experiência de organizar a reunião mais ampla e de maior magnitude científica do país.

De acordo com Guimarães, o trabalho iniciou bem antes do seu preparo, já com o anúncio de que a Unicamp iria sediar o evento no marco da sexagésima edição. Foram 6 meses cravados de muito serviço e reuniões, envolvendo a Universidade toda. Oitenta funcionários estiveram diretamente atuando, 26 voluntários, 10 bolsistas, 323 monitores, 90 vigilantes, 60 de prestação de serviços de limpeza, 9 colaboradores no plantão de emergência e 30 empresas contratadas. Mas a boa influência do encontro também pôde ser vista nas imediações da Unicamp, aumentando as corridas de táxi em 30% e 10% em outros locais, bem como dando preenchimento total da rede hoteleira de Barão Geraldo e região.

Na ExpoT&C, foram contratantes 23 empresas e participaram mais de 60 expositores. Cerca de 250 pessoas estiveram envolvidas na logística, sem contar os estandes das Rádios CBN e Rádio MCT. Já na Feira do Livro expuseram 25 editoras e livrarias, com 100 pessoas trabalhando no espaço.

Durante a programação cultural, foram promovidas cinco atividades diárias, em alguns casos com público superior a 5 mil pessoas, como ocorreu no show de Paulo Moura, que teve como eixo da apresentação um mix entre linguagem popular e erudita.

Programação científica – Inscreveram-se 5.934 pessoas para a programação científica, além de 330 no local, totalizando 6.264. Destes, o maior número de inscritos, como era esperado, provinha do Estado de São Paulo. Surpreendeu, no entanto, a organização que o Estado do Pará tenha vindo em segundo lugar, com 375 pessoas, apesar da distância, seguido pelo Estado de Minas Gerais, com 368. Guimarães estima que o público circulante por dia tenha ultrapassado 3 mil pessoas, isso somadas a programação científica, a ExpoT&C, a Feira do Livro e a Feira de Artesanato. Foram mais de 200 profissionais de comunicação dando cobertura jornalística no local. A Reunião teve sete assembléias, 80 conferências, 14 encontros, 55 mesas-redondas, 7 sessões especiais, 71 simpósios e 43 minicursos, com a participação de 1.261 matriculados.

SBPC Jovem – Nesta outra atividade, a SBPC Jovem, ocorrida na programação do encontro, foram 986 inscritos, 765 se inscreveram no local, totalizando 1.751 pessoas, com atividades adaptadas à faixa etária a partir de 6 anos. O público circulante estimado por dia foi de 1.000 jovens e crianças. Conforme Knobel, a SBPC ocorreu sem imprevistos e superou em muito a expectativa da organização.
(Isabel Gardenal)
Fotos: Antônio Scarpinetti

Balanço

Faltam professores
de ciências no Brasil,
diz presidente da SBPC

Faltam 250 mil professores de Ciências no Brasil, segundo dados do MEC. O número foi fornecido hoje pelo presidente da SBPC, Marco Antonio Raupp, ao avaliar a 60ª Reunião da SBPC e a abordagem deste e de outros temas durante entrevista coletiva realizada na Unicamp. “Mas não é necessário no momento um diagnóstico. A visão é muito clara. Vejo estarrecido alguns estudantes recebendo certificados de conclusão de curso com observações de que não tiveram aulas de matemática ou ciências em determinadas séries”, provocou. De concreto, afirmou ele, a SBPC, enquanto órgão promotor da ciência, irá organizar um workshop para discutir novos rumos, respaldada por manifestação de apoio governamental.

Raupp disse que, com a SBPC sediada pela Unicamp, o impacto observado na cidade transcendeu a esfera social e política. Com um discurso visivelmente satisfeito pelos resultados do encontro, o presidente comentou que o evento logrou êxito e que a parceria deu muito certo.

Ele relatou que a escolha dos tópicos para debate emergiu da importância dos grandes temas nacionais e que a programação foi feita com base em 16 núcleos de interesse. Raupp mencionou alguns núcleos, segundo ele com ampla relação com o desenvolvimento econômico. Sobre a produção de etanol a partir da cana-de-açúcar, entende que há grandes possibilidades de que a tecnologia de produção ocorra vis-à-vis com a segurança alimentar. Sobre a inovação tecnológica, destacou ser este um desafio do país tanto para a aproximação com as empresas como para o aumento da competitividade, inclusive internacional.

Outro tema candente citado por Raupp, e debatido nesta SBPC, foi o aquecimento global com foco no desmatamento. Outros ainda a biodiversidade, pesquisa científica e legislação, ensino brasileiro e recurso terrestre, saúde pública e biocombustíveis. O presidente da SBPC, que é matemático de formação, vislumbra muitos avanços para o país e para a ciência mundial. Acredita ser a experimentação animal em laboratório vital para o desenvolvimento particularmente de vacinas, tanto para uso animal como para seres humanos. “É preciso que haja um grande esforço para que o uso de animais em experimentos deva ter visibilidade como ação que contribua para a vida”, salientou. Disse, porém, que não podem ser deixados de lado os fundamentos éticos. A próxima edição da SBPC, em 2009, está prevista para ocorrer no Estado do Amazonas. “Será uma grande oportunidade para o Brasil exercer sua liderança”, concluiu.
(Isabel Gardenal)
Foto: Antônio Scarpinetti

Evolução

A ecologia de Darwin, 150 anos depois

O professor Thomas Michael Lewinsohn, do Instituto de Biologia da Unicamp, fez em conferência realizada nesta quinta-feira (17) uma releitura de “A Origem das Espécies”, mostrando a importância de Darwin na fundação da ciência ecológica.

Primeiramente, o conferencista realizou um apanhado das obras que influenciaram Darwin; depois, mostrou as idéias sobre ecologia que permeiam “A Origem das Espécies” e, finalmente, mostrou os limites dessas idéias em relação à ecologia praticada no século XXI. Embora Darwin seja reverenciado por sua teoria da evolução, Lewinsohn afirma que “sua teoria é antes de tudo uma teoria ecológica”, e mostra que as idéias fundamentais do autor revelam seu conhecimento de ecologia. Observou ainda que elas estão presentes na ecologia do século XX.

Lewinsohn diz que as grandes obras em diferentes áreas científicas continuam relevantes porque constituem marcos na história do desenvolvimento das idéias e das teorias, e desse ponto de vista não são superadas. Mas, para ele, Darwin, além de marco no desenvolvimento da história das idéias de evolução e ecologia, continua atual porque suas perguntas ainda demandam respostas, enquanto os livros de outras ciências do século XIX são importantes para conhecimento da formação dessas ciências.

A lembrança de Darwin vem a propósito de dois eventos envolvendo o cientista. Em 2008, comemoram-se os 150 anos da primeira apresentação pública da teoria da evolução, feita por Darwin e Wallace. No próximo ano, são comemorados os 150 anos da publicação da grande obra “A Origem das Espécies” e ainda os 200 anos de nascimento do cientista.

Sobre a motivação que levou à escolha do tema, Thomas Lewinsohn afirma que Darwin, além de autor da teoria da evolução por seleção natural, é pouco lembrado também como figura importantíssima no nascimento da nova ciência ecológica, em que apresenta contribuição muito forte. Considera importante ressaltar esse aspecto que na verdade julga tão relevante para a ciência quanto a própria teoria de seleção natural.

Ele considera as idéias, a organização delas, as observações e principalmente as perguntas formuladas por Darwin, muitas das quais presentes na “A Origem das Espécies”, fios condutores que exerceram uma influência fortíssima na organização da ciência da ecologia, que veio a crescer muito depois de sua morte.

O conferencista ressalta que muitas das perguntas e da maneira de observar, das preocupações de Darwin sobre o funcionamento da natureza e a ecologia dos organismos, continuam relevantes e conduzem a indagações atuais que merecem investigação e servem de inspiração para pesquisas que podem ser desenvolvidas em pleno século XXI.

E acrescenta: “Parece-me um caso excepcional o fato de que um livro, que foi importante há 150 anos, continue sendo uma fonte de estímulo para observação crítica, para a formulação de perguntas científicas cuidadosas, sobre a relação dos organismos com o seu meio ambiente, além de tentar responder experimentalmente e por observações a essas perguntas. Nesse sentido, a ecologia de Darwin é importante na formação da ciência da ecologia e continua plenamente atual no século XXI”.

Lewinsohn considera o Darwin ecólogo pouco explorado, o que vê como contradição, uma espécie de um segredo bem guardado, embora os ecologistas saibam de sua importância. Entende que a imagem pública do cientista se construiu por causa da sua teoria de seleção natural, que causou e causa ainda impacto por considerar que a espécie humana tenha ancestrais comuns com espécies animais, e que esse fato passou a dominar e domina até hoje a percepção e o imaginário das pessoas, o que contribuiu para encobrir o Darwin ecologista.

Para o palestrante, existe uma riqueza muito grande na obra de Darwin, que pode levar ao resgate de perguntas que ele coloca sobre organismos os mais variados, como aves, minhocas e plantas: “Essas perguntas podem ser utilizadas hoje nas pesquisas de campo e na formação de pesquisadores como elementos provocativos. Há realmente uma quantidade de idéias extraordinárias, muitas das quais ainda guardadas nesses escritos”.
(Carmo Gallo Netto)
Foto: Antoniho Perri

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